quinta-feira, 16 de julho de 2009

Raízes... (II)

Ai que prazer, ficar ali estirado, em dia estival, ao raiar do astro Deus. Aproveitar aquele momento de cristal, feito de coisas tão simples quanto: uma noite bem dormida, um longo duche tépido, um pequeno almoço substancial e nenhuma pressa.

Encheu os pulmões de ar e olhou em redor, nada mudara no largo da velha igreja. Até a esplanada do café mantinha as cansadas mesas de metal, de cor incerta, e as cadeiras "gonzas" de tanto uso. Persistia, no vício recém adquirido, perscrutando o rosto dos passantes, rejuvenescendo-os, na ânsia de reencontrar um companheiro de escola ou um amigo.

Ajeitou o bloco de apontamentos, ao lado da chávena com um resto de café esfriado. A conversa com o funcionário do Registo Civil já lhe parecia distante, meio devorada pelo processo mental imperativo que o fazia relegar, para o esquecimento, gente pouco interessante.

Tinha que se concentrar no seu recente objectivo: saber mais sobre os seus antepassados. Anotou: - ir aos registos das igrejas; falar com, coevos dos avós, ainda sobreviventes.

Esta última nota fez-lhe lembrar o Sr. João, o ardina que tinha sempre mais para dizer do que os jornais que vendia. Olhou para, o canto da esplanada, onde sempre o via apregoando as últimas notícias. Vazio.

O Sr. João devia ser para a idade dos avós, pensou. Tinha sempre um sorriso nos lábios e a disposição de quem não deve. Era um filósofo natural, cada conversa com ele, resultava numa lição.

Lembrava-se particularmente que um dia ele lhe tinha dito: “- Olhe, tome cuidado com todas as suas decisões, grandes ou pequenas, todas elas condicionam o seu destino.” “Como assim?”, tinha-lhe perguntado. “Veja pela negativa, quando algo corre mal e se questionam os “se” e “se”, muitos desses “se” são coisas de somenos importância”, respondeu-lhe então o Sr. João. E, essa conversa reveladora, ficara-lhe para sempre viva na memória.

Quando o empregado de mesa passou por perto, chamou-o. “Diga-me uma coisa, por favor, o que é feito do Sr. João que era ardina?” “Ahh... o ardina, morreu vai para três ou quatro anos. Estava muito velhote mas vendeu jornais até ao último dia.”

“Aprendi muito com ele”, disse ao empregado. “Sim, sim... todos nós, era um sábio e não andou na escola, nem consta que tivesse biblioteca.”

1 comentário:

  1. Um grande aplauso ao Filipe por ter respondido à chamada! E ainda para mais por me ter descoberto a "careca", não é?
    Mais adiante colocarei um Post com o original onde fui "roubar" as expressões do exercício.

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