Havia muito que tinha saído do país, correra monte e vales, tinha estado um pouco em todo o lado, sem estar em lugar nenhum, até ao dia em que chegou à ilha do seu encantamento: Fernando Noronha.
Fora amor à primeira vista, daquele que gera o desejo de ficar em universo confinado, de estacionar, relaxar e usufruir os momentos da vida. Optara pela vida simples de pescador e, nos dias vagos da faina, por ser guia dos muitos que demandavam, aquele afloramento inspirado da natureza, em pleno oceano.
O caminho diário para a pesca, com regresso sobre a própria pegada, fazia-o, tronco nu, medindo o vento, por uma longa língua de areia fina e alva, espartilhada entre mar e palmar, ao som do murmurar suave das ondas e do trinado, mais apurado, dum ou outro pássaro.
Até ao dia em que, súbito apelo de penates e herança por resolver, o fez regressar, por algum tempo, à terra que o viu nascer.
Chegou à vila pelas alturas em que a andorinha nidifica, deixando os beirais como os recordava da sua juventude. Correu-a, rua a rua, procurando vislumbrar o rosto de algum velho amigo. Mas os anos tinham passado e tudo tinha mudado.
À noite, já em casa da falecida avó, procurou por gavetas e velhos baús, rasto das suas memórias. Encontrou e leu, folha a folha, curiosidade ao rubro, velhos diários e apontamentos da avó, da mãe e até das tias. Uma velha certidão de nascimento, manuscrita em papel amarelado pelos anos e encontrada dobrada por debaixo da pomba cerâmica, de bico partido, que ornava a cómoda de um dos quartos, despertou-lhe o desejo de saber mais sobre os seus antepassados.
No dia seguinte, na sequência do desejo despertado, dirigiu-se à Conservatória do Registo Civil. Às suas perguntas, o camelo do funcionário, verdadeiro urso , velho que nem dinossauro, grande e hirsuto que nem King Kong, lento que nem caracol, respondeu : - “Isso é trabalho para especialistas, nunca mais se orienta e vai precisar de ir ao arquivo das Igrejas.”
Saiu dali com o pensamento na sua ilha e percebeu o porquê de por lá ter ficado.
PhilosHippos
Fabuloso! Um óptimo exemplo criativo de como utilizar as palavras mais díspares num texto com todo o sentido...o sentido de uma verdadeira história! É para continuar....
ResponderEliminarSusana
Os meus parabens filipe. Eu tentei e escrevi algo muito mau que não me atrevi a por no blog. Fico à espera que me apareça algo mais interessante.
ResponderEliminarObrigado aos dois, pelas palavras estimulantes. Quanto a ti Luís, já te vi escrever coisas muito interessantes em contra-relógio :-), a inspiração estará ao virar da esquina. Fico à espera.
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