
Naqueles anos, a estrada que ligava Lisboa ao Algarve, corria estreita, tornando-se tortuosa na zona da serra algarvia. Com um pouco de sorte, quando não havia muito trânsito de pesados, a viagem podia fazer-se em meia dúzia de horas. Conveniente era trazer um bom farnel e um garrafão de água para, à vez, saciar passageiros e radiadores sequiosos.
A história que vou contar, foi-me contada pelo meu pai, na minha tenra juventude.
Numa das muitas viagens que fazia, vinha no sentido norte-sul, debaixo de uma bátega de fim de Outono que, já com o Baixo Alentejo quase ultrapassado, virou chuvisco, com sol aberto. “A chover e a fazer sol e as bruxas a comer pão mole”, pensou, lembrando-se de ladainha da avó. Entrando numa das últimas rectas do percurso, por meio de campos com chaparros dispersos, viu um homem que, à beira da estrada, lhe fazia sinais. Abrandou a marcha, acabando por parar.
O homem, encharcado da cabeça aos pés, fazia dó. Ao ombro, uma pá e uma enxada.
“Amigo, dá-me uma boleia?“, perguntou ao meu pai. “Claro que sim homem, você ainda apanha uma pneumonia, debaixo desta chuva.” Entrou no carro, arrumando os utensílios de trabalho e logo começou a dizer que não ia para muito longe. Talvez dois ou três quilómetros, máximo quatro ou cinco, já se veria, quando surgisse o arco-íris.
“Quando surgir o arco-íris? Mas então, você não sabe para onde quer ir?” O homem argumentou que sim, que sabia, que queria ir para uma das bases do arco-íris. Depois foi explicando que, queria provar aquilo que ouvia desde criança, sobre a existência de uma imensa fortuna enterrada na base do arco-íris.
Não passaram cinco minutos e um glorioso arco-íris, de cores vivas e bem delineadas, abriu nos céus. Parecia que Cronos e Deméter, em sintonia de ensejo, mandavam a sua oceânida mensageira, Íris, anunciar ano de boas colheitas e de melhores fortunas. Os olhos do homem perscrutaram o horizonte, caindo sobre um velho sobreiro onde, de facto, parecia o arco tocar a terra. “Fico aqui mesmo amigo, aqui mesmo.”
Já na estrada, de armas e bagagens, fez o convite que se lhe vinha impondo: – “O amigo quer vir ajudar-me? Olhe que nunca se sabe e uma mão dava-me jeito.”
Não foi preciso mais para o carro ser encostado na berma da estrada e meterem-se os dois a caminho do velho sobreiro. O resto da manhã foi passado a cavar, em redor da velha árvore. Foram horas de intenso labor, suadas, apesar da baixa temperatura. Pouco habituado aquelas lides, ao meu pai doíam costas e as mãos ameaçavam calejar. Sentia-se em dúvida, quanto à valia da opção de se ter metido naqueles trabalhos.
Os pensamentos foram-lhe interrompidos por um som estranho. Era a enxada transmitindo um som oco, que logo se repetiu. Com alguma precipitação, deram-se as últimas pazadas, que puseram a descoberta uma velha arca de madeira. Tardou ainda uma hora, de esforços redobrados, para a por totalmente a descoberto.
Não foi tarefa fácil arrastar a arca para a superfície mas, partidos os gonzos da parte de trás, que pareceram menos resistentes que a velha e sólida fechadura, uns momentos de deslumbre, retiraram todo o som ao espaço circundante.
Eram milhares de moedas de ouro, reluzindo de forma distinta, informando os diversos toques do precioso metal.
O homem insistiu numa partilha em meado, afinal, tinha sido preciosa a ajuda, imprescindível. E feita a distribuição, seguiu cada um o rumo das suas vidas. O resto da viagem até Portimão, foi feito voando. Não ficou memória dos detalhes do caminho, nem do som característico dos rodados, na cansada estrada. Foram feitos e refeitos planos, aplicando a inesperada abundância.
Chegado ao destino, desidratado e de garganta seca, pelo inusitado esforço, dirigiu-se à Casa Inglesa, para beber umas imperiais que lhe vinham dançando na cabeça. Na mesa do canto, os amigos do costume.
“Não queiram saber o que me aconteceu”, foi dizendo enquanto pedia uma rodada geral. E lá foi contando a história, sem tocar no copo, de tão empolgado que estava. Mostrou algumas moedas que tinha metido nos bolsos, para que não restassem dúvidas aos mais cépticos. Acabou dando uma a cada um dos amigos, para que se lembrassem daquele dia. Foi pedindo mais cerveja, para os amigos que iam chegando. Acabou por dar meia dúzia de moedas ao João, porque tinha a mulher a precisar de uma intervenção cirúrgica dispendiosa. E mais cerveja… acabou dispensando a sua, enquanto esperava nova rodada.
Finalmente resolveu beber uma imperial. Levantou o copo… brindou… e baixou o copo aos lábios.
Trim… trim… trim…
Trim… trim… trim…
O velho despertador da “Reguladora” fazia o seu serviço. Abriu os olhos estremunhado… e fechou-os, na tentativa de dar um golo no copo da cerveja.
Não conseguiu… apesar da mão lhe parecer gelada de segurar o copo. Era o despertar…
Tanto trabalho, tanta canseira, tantos planos, tanta gente bebendo… e nada, nem o prazer de uma cerveja gelada a troco da tanto ouro.
Filipe da Silva, “Memórias do Meu Pai”.