segunda-feira, 17 de julho de 2017

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sonho a Cores.


Naqueles anos, a estrada que ligava Lisboa ao Algarve, corria estreita, tornando-se tortuosa na zona da serra algarvia. Com um pouco de sorte, quando não havia muito trânsito de pesados, a viagem podia fazer-se em meia dúzia de horas. Conveniente era trazer um bom farnel e um garrafão de água para, à vez, saciar passageiros e radiadores sequiosos.

A história que vou contar, foi-me contada pelo meu pai, na minha tenra juventude.

Numa das muitas viagens que fazia, vinha no sentido norte-sul, debaixo de uma bátega de fim de Outono que, já com o Baixo Alentejo quase ultrapassado, virou chuvisco, com sol aberto. “A chover e a fazer sol e as bruxas a comer pão mole”, pensou, lembrando-se de ladainha da avó. Entrando numa das últimas rectas do percurso, por meio de campos com chaparros dispersos, viu um homem que, à beira da estrada, lhe fazia sinais. Abrandou a marcha, acabando por parar.

O homem, encharcado da cabeça aos pés, fazia dó. Ao ombro, uma pá e uma enxada.
“Amigo, dá-me uma boleia?“, perguntou ao meu pai. “Claro que sim homem, você ainda apanha uma pneumonia, debaixo desta chuva.” Entrou no carro, arrumando os utensílios de trabalho e logo começou a dizer que não ia para muito longe. Talvez dois ou três quilómetros, máximo quatro ou cinco, já se veria, quando surgisse o arco-íris.

“Quando surgir o arco-íris? Mas então, você não sabe para onde quer ir?” O homem argumentou que sim, que sabia, que queria ir para uma das bases do arco-íris. Depois foi explicando que, queria provar aquilo que ouvia desde criança, sobre a existência de uma imensa fortuna enterrada na base do arco-íris.

Não passaram cinco minutos e um glorioso arco-íris, de cores vivas e bem delineadas, abriu nos céus. Parecia que Cronos e Deméter, em sintonia de ensejo, mandavam a sua oceânida mensageira, Íris, anunciar ano de boas colheitas e de melhores fortunas. Os olhos do homem perscrutaram o horizonte, caindo sobre um velho sobreiro onde, de facto, parecia o arco tocar a terra. “Fico aqui mesmo amigo, aqui mesmo.”

Já na estrada, de armas e bagagens, fez o convite que se lhe vinha impondo: – “O amigo quer vir ajudar-me? Olhe que nunca se sabe e uma mão dava-me jeito.”

Não foi preciso mais para o carro ser encostado na berma da estrada e meterem-se os dois a caminho do velho sobreiro. O resto da manhã foi passado a cavar, em redor da velha árvore. Foram horas de intenso labor, suadas, apesar da baixa temperatura. Pouco habituado aquelas lides, ao meu pai doíam costas e as mãos ameaçavam calejar. Sentia-se em dúvida, quanto à valia da opção de se ter metido naqueles trabalhos.

Os pensamentos foram-lhe interrompidos por um som estranho. Era a enxada transmitindo um som oco, que logo se repetiu. Com alguma precipitação, deram-se as últimas pazadas, que puseram a descoberta uma velha arca de madeira. Tardou ainda uma hora, de esforços redobrados, para a por totalmente a descoberto.

Não foi tarefa fácil arrastar a arca para a superfície mas, partidos os gonzos da parte de trás, que pareceram menos resistentes que a velha e sólida fechadura, uns momentos de deslumbre, retiraram todo o som ao espaço circundante.

Eram milhares de moedas de ouro, reluzindo de forma distinta, informando os diversos toques do precioso metal.

O homem insistiu numa partilha em meado, afinal, tinha sido preciosa a ajuda, imprescindível. E feita a distribuição, seguiu cada um o rumo das suas vidas. O resto da viagem até Portimão, foi feito voando. Não ficou memória dos detalhes do caminho, nem do som característico dos rodados, na cansada estrada. Foram feitos e refeitos planos, aplicando a inesperada abundância.

Chegado ao destino, desidratado e de garganta seca, pelo inusitado esforço, dirigiu-se à Casa Inglesa, para beber umas imperiais que lhe vinham dançando na cabeça. Na mesa do canto, os amigos do costume.

“Não queiram saber o que me aconteceu”,
foi dizendo enquanto pedia uma rodada geral. E lá foi contando a história, sem tocar no copo, de tão empolgado que estava. Mostrou algumas moedas que tinha metido nos bolsos, para que não restassem dúvidas aos mais cépticos. Acabou dando uma a cada um dos amigos, para que se lembrassem daquele dia. Foi pedindo mais cerveja, para os amigos que iam chegando. Acabou por dar meia dúzia de moedas ao João, porque tinha a mulher a precisar de uma intervenção cirúrgica dispendiosa. E mais cerveja… acabou dispensando a sua, enquanto esperava nova rodada.

Finalmente resolveu beber uma imperial. Levantou o copo… brindou… e baixou o copo aos lábios.

Trim… trim… trim…
Trim… trim… trim…

O velho despertador da “Reguladora” fazia o seu serviço. Abriu os olhos estremunhado… e fechou-os, na tentativa de dar um golo no copo da cerveja.

Não conseguiu… apesar da mão lhe parecer gelada de segurar o copo. Era o despertar…

Tanto trabalho, tanta canseira, tantos planos, tanta gente bebendo… e nada, nem o prazer de uma cerveja gelada a troco da tanto ouro.

Filipe da Silva, “Memórias do Meu Pai”.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Os ovos de ouro da galinha


Num lindo e verde vale que bordejava calmo rio de águas cristalinas, vivia, há algumas gerações, uma família de fazendeiros que cuidava do amanho das férteis terras e da criação de gado. Era uma família grande, pai, mãe e sete filhos, dos quais, a mais velha e a mais nova, eram meninas.

As filhas ajudavam a mãe nas lides da casa, da limpeza à preparação das refeições, da confecção das compotas sazonais à azáfama do aprontar dos enchidos para o fumeiro. Os filhos, quando as obrigações escolares o permitiam, saíam cedo para os campos, ajudando em todas as tarefas da lavoura e no maneio dos animais. Eram uma família remediada, saudável e feliz.

Certa manhã, indo o fazendeiro ao galinheiro para recolher uns ovos, descobriu que uma das galinhas tinha posto um ovo de ouro. E assim aconteceu por muitos dias. O fazendeiro foi vendendo os ovos da galinha, que tinha baptizado de Midas, e acabou senhor de uma grande fortuna.

Até que um dia, o fazendeiro, matou a galinha. O que fizeste tu?, perguntou-lhe a mulher. E que tinha nas entranhas?, voltou a perguntar. Nada, disse-lhe o fazendeiro.

Então porque o fizeste?, inquiriu a mulher em desespero. Ao que o fazendeiro respondeu: Olha, mulher. As frutas caem das árvores, porque ninguém as apanha. Os nossos filhos mudaram-se todos para a cidade. Já não fazemos matança do porco porque, só para dois, não se justifica. Não consigo cuidar das terras dos meus pais, sozinho. O gado definha. As tuas filhas estão casadas, com interesseiros caçadores de fortuna, e não sabem o que é amor. Os teus filhos perdem-se entre noitadas de borga, estroina, mulheres de vida fácil, álcool e droga. Nenhum deles faz nada na vida e todos abandonaram a escola. A nossa casa é ninho da tristeza. Quero a minha antiga vida de volta. Tornámo-nos uma família rica, pouco saudável e infeliz. Por isso matei a galinha.

Moral da estória: Ganha o teu pão com o suor do teu rosto. Só darás verdadeiro valor ao que alcançares com muita labuta, pois nunca saberás valorizar o que obtiveres sem esforço.


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Raízes... (II)

Ai que prazer, ficar ali estirado, em dia estival, ao raiar do astro Deus. Aproveitar aquele momento de cristal, feito de coisas tão simples quanto: uma noite bem dormida, um longo duche tépido, um pequeno almoço substancial e nenhuma pressa.

Encheu os pulmões de ar e olhou em redor, nada mudara no largo da velha igreja. Até a esplanada do café mantinha as cansadas mesas de metal, de cor incerta, e as cadeiras "gonzas" de tanto uso. Persistia, no vício recém adquirido, perscrutando o rosto dos passantes, rejuvenescendo-os, na ânsia de reencontrar um companheiro de escola ou um amigo.

Ajeitou o bloco de apontamentos, ao lado da chávena com um resto de café esfriado. A conversa com o funcionário do Registo Civil já lhe parecia distante, meio devorada pelo processo mental imperativo que o fazia relegar, para o esquecimento, gente pouco interessante.

Tinha que se concentrar no seu recente objectivo: saber mais sobre os seus antepassados. Anotou: - ir aos registos das igrejas; falar com, coevos dos avós, ainda sobreviventes.

Esta última nota fez-lhe lembrar o Sr. João, o ardina que tinha sempre mais para dizer do que os jornais que vendia. Olhou para, o canto da esplanada, onde sempre o via apregoando as últimas notícias. Vazio.

O Sr. João devia ser para a idade dos avós, pensou. Tinha sempre um sorriso nos lábios e a disposição de quem não deve. Era um filósofo natural, cada conversa com ele, resultava numa lição.

Lembrava-se particularmente que um dia ele lhe tinha dito: “- Olhe, tome cuidado com todas as suas decisões, grandes ou pequenas, todas elas condicionam o seu destino.” “Como assim?”, tinha-lhe perguntado. “Veja pela negativa, quando algo corre mal e se questionam os “se” e “se”, muitos desses “se” são coisas de somenos importância”, respondeu-lhe então o Sr. João. E, essa conversa reveladora, ficara-lhe para sempre viva na memória.

Quando o empregado de mesa passou por perto, chamou-o. “Diga-me uma coisa, por favor, o que é feito do Sr. João que era ardina?” “Ahh... o ardina, morreu vai para três ou quatro anos. Estava muito velhote mas vendeu jornais até ao último dia.”

“Aprendi muito com ele”, disse ao empregado. “Sim, sim... todos nós, era um sábio e não andou na escola, nem consta que tivesse biblioteca.”

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ainda os contos infantis...

Mantendo a minha veia infantil, deixo aqui algo que me ofereceram e muito me agradou.

Her skin is white cloth,
and she's all sewn apart
and she has many colored pins
sticking out of her heart.

She has many different zombies
who are deeply in her trance.
She even has a zombie
who was originally from France.

But she knows she has a curse on her,
a curse she cannot win.
For if someone gets
too close to her,

the pins stick farther in.

Preguiça?

Então que tal estão os meus amigos da escrita? Uns verdadeiros preguiçosos, creio eu!
Para contrariar essa toada e com a certeza que vocês vão dizimar esta minha tese, lanço mais um desafio....

Um texto livre que inicie com: "Ai que prazer..."
e termine com "Nem consta que tivesse biblioteca"

Fico à espera de muitas respostas... até porque desafios é convosco... pronto, pronto...já sei o que vos falta... têm cinco minutos a partir de .... AGORA!!!
Até já...

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Formiga e a Cigarra


Não era uma vez... , nem duas nem três, que o rei mandava os seus arautos proclamar éditos condenando as vagamundos cigarras. “Que dali não vinha bem nenhum ao reino.”, queixava- -se, aos seus conselheiros, “Que aquilo de trovar, dançar, representar ou mesmo o estúpido jogo, com bola de trapos, que praticavam, não trazia nada de bom aos cofres reais”. “Vejam as formiguinhas, laboriosas, poupadas, ordeiras, verdadeiras pagadoras dos impostos reais, engrandecedoras do reino e do tesouro real.”, clamava. “São donas do seu futuro”, afirmava com convicção.

E para lhe dar razão, as formiguinhas viviam para trabalhar, trabalhavam para poupar e comer, comiam para viver.

Passaram-se muitos, muitos e muitos anos, tantos que já ninguém sabe contar. Agora, no triste reino das formiguinhas e das cigarras, as formigas são anónimas, sindicalizadas e formatadas num imbróglio de leis que, à custa de alegadamente as proteger, as escravizam.

Enquanto as cigarras que se especializaram no jogo da bola de trapos, são recebidas por formigueiros inteiros, que se acotovelam e atropelam, para as ver jogar ou simplesmente para lhes dar as boas vindas. As cigarras cantadoras e dançantes imortalizam-se, tem grupos de fãs, que se arranham e esgatanham por um lugar na primeira fila, à volta das árvores que escolhem como palco ou ainda, por um simples gatafunho saído do seu punho. As cigarras ditam a moda, são modelos mais ou menos dúbios de vida, dão cor aos cartazes publicitários. Quando chegam ao Outono da vida ou ao Inverno do seu descontentamento, são deificadas.

E a formiguinha, vive para trabalhar, trabalha para comer, que não poupar, come para viver, revendo-se na vida das cigarras e vivendo para trabalhar, trabalhando para comer e comendo para viver. Até ao mergulho definitivo no anonimato da história.

Moral da estória: Não vivas para trabalhar, nem só de pão vive o Homem. Dá um espaço ao teu espírito, à tua alma. “Carpe diem quam minimum credula postero”.