terça-feira, 7 de julho de 2009

A Formiga e a Cigarra


Não era uma vez... , nem duas nem três, que o rei mandava os seus arautos proclamar éditos condenando as vagamundos cigarras. “Que dali não vinha bem nenhum ao reino.”, queixava- -se, aos seus conselheiros, “Que aquilo de trovar, dançar, representar ou mesmo o estúpido jogo, com bola de trapos, que praticavam, não trazia nada de bom aos cofres reais”. “Vejam as formiguinhas, laboriosas, poupadas, ordeiras, verdadeiras pagadoras dos impostos reais, engrandecedoras do reino e do tesouro real.”, clamava. “São donas do seu futuro”, afirmava com convicção.

E para lhe dar razão, as formiguinhas viviam para trabalhar, trabalhavam para poupar e comer, comiam para viver.

Passaram-se muitos, muitos e muitos anos, tantos que já ninguém sabe contar. Agora, no triste reino das formiguinhas e das cigarras, as formigas são anónimas, sindicalizadas e formatadas num imbróglio de leis que, à custa de alegadamente as proteger, as escravizam.

Enquanto as cigarras que se especializaram no jogo da bola de trapos, são recebidas por formigueiros inteiros, que se acotovelam e atropelam, para as ver jogar ou simplesmente para lhes dar as boas vindas. As cigarras cantadoras e dançantes imortalizam-se, tem grupos de fãs, que se arranham e esgatanham por um lugar na primeira fila, à volta das árvores que escolhem como palco ou ainda, por um simples gatafunho saído do seu punho. As cigarras ditam a moda, são modelos mais ou menos dúbios de vida, dão cor aos cartazes publicitários. Quando chegam ao Outono da vida ou ao Inverno do seu descontentamento, são deificadas.

E a formiguinha, vive para trabalhar, trabalha para comer, que não poupar, come para viver, revendo-se na vida das cigarras e vivendo para trabalhar, trabalhando para comer e comendo para viver. Até ao mergulho definitivo no anonimato da história.

Moral da estória: Não vivas para trabalhar, nem só de pão vive o Homem. Dá um espaço ao teu espírito, à tua alma. “Carpe diem quam minimum credula postero”.


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