sexta-feira, 3 de julho de 2009

Algodão Doce



Nos tempos em que me esqueci por Bissau, que cirandei lés a lés, foi-me revelado que a Guiné é, salvaguardadas distância e circunstâncias, o “país baixo” de África.

É a total ausência de relevos dignos de nota, as “bolanhas” ensinando aos céus como desenhar um “Gruyère”, os rios correndo lentos, por ausência de desníveis, marcando o ritmo à terra e suas gentes e brindando-nos, pela mesma razão, com fenomenais macaréus.

Bissau é terra onde a chuva chove, como decorre da tradução directa do crioulo “tchuba tá tchobi”, empapando os solos de níveis freáticos à flor. Não é pois de estranhar que a humidade ande sempre próximo da saturação, tornando as temperaturas, por abafadas, mais quentes do que seria de esperar.

Foi numa dessas noites quentes e húmidas, em que a natureza todos sacode da lura, que resolvi ir ao cinema. Contou também algum enfartamento com a televisão local, onde os filmes eram interrompidos, na melhor das hipóteses, meia dúzia de vezes. Não por imperativos publicitários, mas pelos sucessivos cortes de energia que o engasgar dos arrítmicos geradores da termoeléctrica, instalada ali bem perto, deixavam adivinhar e ainda, pelo sobressalto subconsciente em que nos deixavam, quando, no fim de cada filme, anunciavam : - “Favor rebobinar esta cassete e devolver ao seu vídeo clube”.

Pareceu-me assim refrescante ir ao cinema, malgrado a opção ser um filme russo sem legendas o que, a ninguém parecia incomodar, à vista da lotação esgotada. O povo de “tchon di papel” é alegre por natureza e rapidamente, os sonoros comentários da geral, transformaram, na melhor das comédias, a pungente tragédia que se desenrolava em longínquas estepes. Clássico foi um dos comentários dos habitués:- “Tchii... soldado burro... ainda ontem morreste aí”.

Foi nessa noite também que Daniel, Juiz de Direito, como pomposamente se apresentava, mas senhor de muito tempo livre, por repouso da lei, lançou mais um dos micro empreendimentos que caracterizavam a sua faceta empresarial. Uma máquina de algodão doce à porta do cinema.

Empreendedor era igualmente um puto “saracolé”, atraído pela novidade e com sólida formação na escola da mãe “bideira”, do compra aqui e vende logo ali, a troco de um ou dois pesos de mais-valia. De um salto assegurou o primeiro lugar na fila e, para revenda, comprou seis farfalhudos algodões doce.

O tempo de espera entre o primeiro e o último dos algodões foi quanto bastou para a humidade iniciar a sua tarefa.

Na noite, mal iluminada, a cara do puto, tez café, fazia sobressair dentes e olhos, animados por meia de sorriso forçado, meia de surpresa, pelo inesperado minguar da sua mercancia. Inconformado, debitava o seu pregão, levantando bem alto os paus dos algodões doce que, enquadrando o rosto, lhe davam um ar de malmequer quase murcho.

À saída do cinema encontrei-o sentado, num dos patins da escada, meditabundo, com seis paus, de massa disforme e viscosa, na mão. “Hey puto ... correu mal a noite!!!”, exclamei. “Correu mal sim, tuga...”. Dei-lhe um carolo amigável, à guisa de despedida e fui andando, deixando-o a aprender com o erro e a inventar o futuro.

Histórias de Viagens Crónicas

PhilosHippos

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