sexta-feira, 24 de julho de 2009

Os ovos de ouro da galinha


Num lindo e verde vale que bordejava calmo rio de águas cristalinas, vivia, há algumas gerações, uma família de fazendeiros que cuidava do amanho das férteis terras e da criação de gado. Era uma família grande, pai, mãe e sete filhos, dos quais, a mais velha e a mais nova, eram meninas.

As filhas ajudavam a mãe nas lides da casa, da limpeza à preparação das refeições, da confecção das compotas sazonais à azáfama do aprontar dos enchidos para o fumeiro. Os filhos, quando as obrigações escolares o permitiam, saíam cedo para os campos, ajudando em todas as tarefas da lavoura e no maneio dos animais. Eram uma família remediada, saudável e feliz.

Certa manhã, indo o fazendeiro ao galinheiro para recolher uns ovos, descobriu que uma das galinhas tinha posto um ovo de ouro. E assim aconteceu por muitos dias. O fazendeiro foi vendendo os ovos da galinha, que tinha baptizado de Midas, e acabou senhor de uma grande fortuna.

Até que um dia, o fazendeiro, matou a galinha. O que fizeste tu?, perguntou-lhe a mulher. E que tinha nas entranhas?, voltou a perguntar. Nada, disse-lhe o fazendeiro.

Então porque o fizeste?, inquiriu a mulher em desespero. Ao que o fazendeiro respondeu: Olha, mulher. As frutas caem das árvores, porque ninguém as apanha. Os nossos filhos mudaram-se todos para a cidade. Já não fazemos matança do porco porque, só para dois, não se justifica. Não consigo cuidar das terras dos meus pais, sozinho. O gado definha. As tuas filhas estão casadas, com interesseiros caçadores de fortuna, e não sabem o que é amor. Os teus filhos perdem-se entre noitadas de borga, estroina, mulheres de vida fácil, álcool e droga. Nenhum deles faz nada na vida e todos abandonaram a escola. A nossa casa é ninho da tristeza. Quero a minha antiga vida de volta. Tornámo-nos uma família rica, pouco saudável e infeliz. Por isso matei a galinha.

Moral da estória: Ganha o teu pão com o suor do teu rosto. Só darás verdadeiro valor ao que alcançares com muita labuta, pois nunca saberás valorizar o que obtiveres sem esforço.


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Raízes... (II)

Ai que prazer, ficar ali estirado, em dia estival, ao raiar do astro Deus. Aproveitar aquele momento de cristal, feito de coisas tão simples quanto: uma noite bem dormida, um longo duche tépido, um pequeno almoço substancial e nenhuma pressa.

Encheu os pulmões de ar e olhou em redor, nada mudara no largo da velha igreja. Até a esplanada do café mantinha as cansadas mesas de metal, de cor incerta, e as cadeiras "gonzas" de tanto uso. Persistia, no vício recém adquirido, perscrutando o rosto dos passantes, rejuvenescendo-os, na ânsia de reencontrar um companheiro de escola ou um amigo.

Ajeitou o bloco de apontamentos, ao lado da chávena com um resto de café esfriado. A conversa com o funcionário do Registo Civil já lhe parecia distante, meio devorada pelo processo mental imperativo que o fazia relegar, para o esquecimento, gente pouco interessante.

Tinha que se concentrar no seu recente objectivo: saber mais sobre os seus antepassados. Anotou: - ir aos registos das igrejas; falar com, coevos dos avós, ainda sobreviventes.

Esta última nota fez-lhe lembrar o Sr. João, o ardina que tinha sempre mais para dizer do que os jornais que vendia. Olhou para, o canto da esplanada, onde sempre o via apregoando as últimas notícias. Vazio.

O Sr. João devia ser para a idade dos avós, pensou. Tinha sempre um sorriso nos lábios e a disposição de quem não deve. Era um filósofo natural, cada conversa com ele, resultava numa lição.

Lembrava-se particularmente que um dia ele lhe tinha dito: “- Olhe, tome cuidado com todas as suas decisões, grandes ou pequenas, todas elas condicionam o seu destino.” “Como assim?”, tinha-lhe perguntado. “Veja pela negativa, quando algo corre mal e se questionam os “se” e “se”, muitos desses “se” são coisas de somenos importância”, respondeu-lhe então o Sr. João. E, essa conversa reveladora, ficara-lhe para sempre viva na memória.

Quando o empregado de mesa passou por perto, chamou-o. “Diga-me uma coisa, por favor, o que é feito do Sr. João que era ardina?” “Ahh... o ardina, morreu vai para três ou quatro anos. Estava muito velhote mas vendeu jornais até ao último dia.”

“Aprendi muito com ele”, disse ao empregado. “Sim, sim... todos nós, era um sábio e não andou na escola, nem consta que tivesse biblioteca.”

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ainda os contos infantis...

Mantendo a minha veia infantil, deixo aqui algo que me ofereceram e muito me agradou.

Her skin is white cloth,
and she's all sewn apart
and she has many colored pins
sticking out of her heart.

She has many different zombies
who are deeply in her trance.
She even has a zombie
who was originally from France.

But she knows she has a curse on her,
a curse she cannot win.
For if someone gets
too close to her,

the pins stick farther in.

Preguiça?

Então que tal estão os meus amigos da escrita? Uns verdadeiros preguiçosos, creio eu!
Para contrariar essa toada e com a certeza que vocês vão dizimar esta minha tese, lanço mais um desafio....

Um texto livre que inicie com: "Ai que prazer..."
e termine com "Nem consta que tivesse biblioteca"

Fico à espera de muitas respostas... até porque desafios é convosco... pronto, pronto...já sei o que vos falta... têm cinco minutos a partir de .... AGORA!!!
Até já...

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Formiga e a Cigarra


Não era uma vez... , nem duas nem três, que o rei mandava os seus arautos proclamar éditos condenando as vagamundos cigarras. “Que dali não vinha bem nenhum ao reino.”, queixava- -se, aos seus conselheiros, “Que aquilo de trovar, dançar, representar ou mesmo o estúpido jogo, com bola de trapos, que praticavam, não trazia nada de bom aos cofres reais”. “Vejam as formiguinhas, laboriosas, poupadas, ordeiras, verdadeiras pagadoras dos impostos reais, engrandecedoras do reino e do tesouro real.”, clamava. “São donas do seu futuro”, afirmava com convicção.

E para lhe dar razão, as formiguinhas viviam para trabalhar, trabalhavam para poupar e comer, comiam para viver.

Passaram-se muitos, muitos e muitos anos, tantos que já ninguém sabe contar. Agora, no triste reino das formiguinhas e das cigarras, as formigas são anónimas, sindicalizadas e formatadas num imbróglio de leis que, à custa de alegadamente as proteger, as escravizam.

Enquanto as cigarras que se especializaram no jogo da bola de trapos, são recebidas por formigueiros inteiros, que se acotovelam e atropelam, para as ver jogar ou simplesmente para lhes dar as boas vindas. As cigarras cantadoras e dançantes imortalizam-se, tem grupos de fãs, que se arranham e esgatanham por um lugar na primeira fila, à volta das árvores que escolhem como palco ou ainda, por um simples gatafunho saído do seu punho. As cigarras ditam a moda, são modelos mais ou menos dúbios de vida, dão cor aos cartazes publicitários. Quando chegam ao Outono da vida ou ao Inverno do seu descontentamento, são deificadas.

E a formiguinha, vive para trabalhar, trabalha para comer, que não poupar, come para viver, revendo-se na vida das cigarras e vivendo para trabalhar, trabalhando para comer e comendo para viver. Até ao mergulho definitivo no anonimato da história.

Moral da estória: Não vivas para trabalhar, nem só de pão vive o Homem. Dá um espaço ao teu espírito, à tua alma. “Carpe diem quam minimum credula postero”.


segunda-feira, 6 de julho de 2009

As favas

Certamente não há estória de encantar sem mau para agastar.
As favas eram os eternos pretendentes ao trono, primos de linhagem, mas completos estranhos moralmente. Viviam verdes de inveja da elegância e aparente eterno sucesso das bonitas ervilhas. Também elas eram verdes, também elas vinham de uma vagem, no entanto todo o que de delicado e perfeição esférica emanava das ervilhas, era completamente ausente nas feias favas, presas a um corpo eternamente torturado e disforme com aquela medonha cicatriz a encimar-lhes o cocuruto.
Sempre que achavam que podiam escapar impunes usavam o seu corpanzil para esmagar os seus delicados primos ervilhas, eram verdadeiramente terríveis, uns casca grossa da pior espécie.
É certo que havia relatos de uniões de sucesso com chouriços de alguma estirpe e que até contavam com a bênção do santo ovo escalfado, mas corria a ideia que eram favas muito aproximadas das suas primas ervilhas, já que eram claramente mais tenras do que aquilo que se esperaria de uma verdadeira fava.

Conto infantil

Que grande emoção reinava no castelo!

A ervilha real, saída do aconchego de uma vagem real, com toda a tranquilidade e porte de uma ervilha pela qual corre seiva real, ia casar.

Não era caso para menos, demorou muito tempo a encontrar o chouriço à altura de tal Princesa. Também ele teve de provar a sua origem mui nobre, da melhor linhagem de carnes, no mais pacifico pasto alimentadas, e, no interior da sua sensível pele, ele teria ainda de manter todo o seu porte real mesmo quando dividido em vinte elegantes e perfeitamente iguais fatias que se misturariam no castelo com toda a família de ervilhas reais.

Apenas restava uma dúvida, seria o casamento coroado com a felicidade suprema do ovo real?

Que festa, que suprema alegria, que delicia seria esta união de ervilhas com chouriço abençoada pelo real ovo escalfado!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Raízes


Havia muito que tinha saído do país, correra monte e vales, tinha estado um pouco em todo o lado, sem estar em lugar nenhum, até ao dia em que chegou à ilha do seu encantamento: Fernando Noronha.

Fora amor à primeira vista, daquele que gera o desejo de ficar em universo confinado, de estacionar, relaxar e usufruir os momentos da vida. Optara pela vida simples de pescador e, nos dias vagos da faina, por ser guia dos muitos que demandavam, aquele afloramento inspirado da natureza, em pleno oceano.

O caminho diário para a pesca, com regresso sobre a própria pegada, fazia-o, tronco nu, medindo o vento, por uma longa língua de areia fina e alva, espartilhada entre mar e palmar, ao som do murmurar suave das ondas e do trinado, mais apurado, dum ou outro pássaro.

Até ao dia em que, súbito apelo de penates e herança por resolver, o fez regressar, por algum tempo, à terra que o viu nascer.

Chegou à vila pelas alturas em que a andorinha nidifica, deixando os beirais como os recordava da sua juventude. Correu-a, rua a rua, procurando vislumbrar o rosto de algum velho amigo. Mas os anos tinham passado e tudo tinha mudado.

À noite, já em casa da falecida avó, procurou por gavetas e velhos baús, rasto das suas memórias. Encontrou e leu, folha a folha, curiosidade ao rubro, velhos diários e apontamentos da avó, da mãe e até das tias. Uma velha certidão de nascimento, manuscrita em papel amarelado pelos anos e encontrada dobrada por debaixo da pomba cerâmica, de bico partido, que ornava a cómoda de um dos quartos, despertou-lhe o desejo de saber mais sobre os seus antepassados.

No dia seguinte, na sequência do desejo despertado, dirigiu-se à Conservatória do Registo Civil. Às suas perguntas, o camelo do funcionário, verdadeiro urso , velho que nem dinossauro, grande e hirsuto que nem King Kong, lento que nem caracol, respondeu : - “Isso é trabalho para especialistas, nunca mais se orienta e vai precisar de ir ao arquivo das Igrejas.”

Saiu dali com o pensamento na sua ilha e percebeu o porquê de por lá ter ficado.

PhilosHippos


Algodão Doce



Nos tempos em que me esqueci por Bissau, que cirandei lés a lés, foi-me revelado que a Guiné é, salvaguardadas distância e circunstâncias, o “país baixo” de África.

É a total ausência de relevos dignos de nota, as “bolanhas” ensinando aos céus como desenhar um “Gruyère”, os rios correndo lentos, por ausência de desníveis, marcando o ritmo à terra e suas gentes e brindando-nos, pela mesma razão, com fenomenais macaréus.

Bissau é terra onde a chuva chove, como decorre da tradução directa do crioulo “tchuba tá tchobi”, empapando os solos de níveis freáticos à flor. Não é pois de estranhar que a humidade ande sempre próximo da saturação, tornando as temperaturas, por abafadas, mais quentes do que seria de esperar.

Foi numa dessas noites quentes e húmidas, em que a natureza todos sacode da lura, que resolvi ir ao cinema. Contou também algum enfartamento com a televisão local, onde os filmes eram interrompidos, na melhor das hipóteses, meia dúzia de vezes. Não por imperativos publicitários, mas pelos sucessivos cortes de energia que o engasgar dos arrítmicos geradores da termoeléctrica, instalada ali bem perto, deixavam adivinhar e ainda, pelo sobressalto subconsciente em que nos deixavam, quando, no fim de cada filme, anunciavam : - “Favor rebobinar esta cassete e devolver ao seu vídeo clube”.

Pareceu-me assim refrescante ir ao cinema, malgrado a opção ser um filme russo sem legendas o que, a ninguém parecia incomodar, à vista da lotação esgotada. O povo de “tchon di papel” é alegre por natureza e rapidamente, os sonoros comentários da geral, transformaram, na melhor das comédias, a pungente tragédia que se desenrolava em longínquas estepes. Clássico foi um dos comentários dos habitués:- “Tchii... soldado burro... ainda ontem morreste aí”.

Foi nessa noite também que Daniel, Juiz de Direito, como pomposamente se apresentava, mas senhor de muito tempo livre, por repouso da lei, lançou mais um dos micro empreendimentos que caracterizavam a sua faceta empresarial. Uma máquina de algodão doce à porta do cinema.

Empreendedor era igualmente um puto “saracolé”, atraído pela novidade e com sólida formação na escola da mãe “bideira”, do compra aqui e vende logo ali, a troco de um ou dois pesos de mais-valia. De um salto assegurou o primeiro lugar na fila e, para revenda, comprou seis farfalhudos algodões doce.

O tempo de espera entre o primeiro e o último dos algodões foi quanto bastou para a humidade iniciar a sua tarefa.

Na noite, mal iluminada, a cara do puto, tez café, fazia sobressair dentes e olhos, animados por meia de sorriso forçado, meia de surpresa, pelo inesperado minguar da sua mercancia. Inconformado, debitava o seu pregão, levantando bem alto os paus dos algodões doce que, enquadrando o rosto, lhe davam um ar de malmequer quase murcho.

À saída do cinema encontrei-o sentado, num dos patins da escada, meditabundo, com seis paus, de massa disforme e viscosa, na mão. “Hey puto ... correu mal a noite!!!”, exclamei. “Correu mal sim, tuga...”. Dei-lhe um carolo amigável, à guisa de despedida e fui andando, deixando-o a aprender com o erro e a inventar o futuro.

Histórias de Viagens Crónicas

PhilosHippos